Ansiedade

Neuropsicologia da Ansiedade: o que Acontece no Cérebro Ansioso

Thais Gonçalves · CRP 06/15941214 de junho de 202617 min de leitura

Imagine que você está caminhando tranquilamente e, de repente, vê algo se mover rápido na grama ao lado do seu pé. Em uma fração de segundo, antes mesmo de conseguir pensar “o que foi isso?”, seu coração já acelerou, seus músculos já se tensionaram, e seu corpo já está pronto para pular ou recuar.

Esse reflexo automático é uma das coisas mais extraordinárias que o cérebro humano faz. E é também a chave para entender a ansiedade.

A ansiedade, tanto a que protege quanto a que paralisa, tem uma origem neurobiológica precisa. Ela não é fraqueza, não é invenção, não é exagero. É o produto de circuitos cerebrais especializados que evoluíram ao longo de milhões de anos para uma única missão: manter você vivo diante de ameaças. O problema é que esses circuitos não distinguem muito bem um predador na savana de uma apresentação para o chefe na segunda-feira.

Este artigo explica, estrutura por estrutura, o que acontece no cérebro quando a ansiedade toma conta, e por que esse entendimento é também o primeiro passo para mudar esse padrão.

Por que Entender o Cérebro Ansioso Importa

Antes de entrar na neurociência, vale responder uma pergunta legítima: por que saber o que acontece no cérebro faz alguma diferença para quem sofre de ansiedade?

A resposta é direta: a compreensão neurobiológica desfaz a culpa e abre caminho para o tratamento. Quando alguém entende que a taquicardia, os pensamentos catastróficos, a insônia e a tensão muscular são respostas de um sistema nervoso em modo de alarme, e não sinais de fraqueza ou falta de controle, algo muda. A vergonha diminui, a resistência ao tratamento cai, e a pessoa passa a entender por que técnicas terapêuticas específicas funcionam. Como veremos ao final, a TCC não apenas alivia os sintomas: ela altera a estrutura e o funcionamento do cérebro ansioso, de formas mensuráveis em ressonância magnética.

O Cérebro em Modo de Sobrevivência

O cérebro humano não foi desenhado com a ansiedade em mente. Foi esculpido pela evolução para uma tarefa simples e urgente: detectar ameaças e responder a elas rápido o suficiente para sobreviver. Para isso, desenvolvemos um sistema de alarme muito eficiente, mas que no mundo moderno costuma disparar quando não deveria. Esse sistema envolve uma rede de estruturas que trabalham juntas: a amígdala (o alarme de incêndio), o córtex pré-frontal (o bombeiro racional), o hipocampo (o arquivista de memórias), o hipotálamo (o comandante das respostas físicas), o tálamo (o roteador de informações sensoriais) e o locus coeruleus (o gerador de alerta noradrenérgico).

A Amígdala: o Alarme de Incêndio do Cérebro

A amígdala é uma estrutura em forma de amêndoa, localizada no lobo temporal medial, dentro do sistema límbico. Apesar do tamanho pequeno, próximo ao de uma uva, exerce um papel desproporcional na vida emocional humana.

A amígdala é responsável por detectar ameaças e iniciar a resposta de alarme, e faz isso em cerca de 120 milissegundos após a percepção de um estímulo ameaçador, antes mesmo que a informação chegue ao córtex cerebral consciente. É o que os neurocientistas chamam de via rápida do processamento emocional.

Uma revisão na Nature Reviews Neuroscience (Ehrlich et al., 2009) descreve a amígdala como um hub central da rede do medo, que recebe informações sensoriais do tálamo e do córtex, avalia o potencial de ameaça e dispara respostas defensivas coordenadas. Uma revisão mais recente na mesma revista (Shackman, Grogans & Fox, 2024) reafirma a amígdala como estrutura central na arquitetura da ansiedade humana, sobretudo o núcleo central e a amígdala basolateral. Uma revisão no Neuroscience & Biobehavioral Reviews (Grogans et al., 2023) descreve que a resposta da amígdala é rápida, automática e pré-consciente: ela avalia o perigo antes que a mente consciente tenha chance de intervir, o que é adaptativo em situações de perigo real.

Em pessoas com transtornos de ansiedade, a amígdala tende a ser hiperreativa: enxerga ameaças onde há ambiguidade, generaliza o perigo para situações não perigosas, e dispara alarmes com intensidade desproporcional ao estímulo real. Estudos de ressonância funcional mostram consistentemente maior ativação da amígdala em pessoas com ansiedade social, TAG, transtorno do pânico e TEPT, diante de estímulos que não provocam essa resposta em quem não tem transtornos de ansiedade.

O que a amígdala tem a ver com ansiedade? A amígdala é uma estrutura do sistema límbico responsável por detectar ameaças e iniciar a resposta de alarme em milissegundos, antes mesmo da consciência. Em pessoas com transtornos de ansiedade, ela é hipersensível, disparando respostas intensas diante de situações que não representam perigo real. É o centro neurobiológico do medo e da ansiedade patológica.

O Tálamo: o Roteador da Informação Sensorial

Antes de chegar à amígdala, as informações do ambiente passam pelo tálamo, uma estrutura no centro do diencéfalo que funciona como um grande roteador de sinais sensoriais. O tálamo recebe informações de quase todos os sentidos e as encaminha para dois destinos: uma via rápida, direto para a amígdala em milissegundos (que sacrifica detalhes pela velocidade, e é a razão de pularmos antes de perceber que a “cobra” era uma mangueira), e uma via lenta, para o córtex cerebral, onde a informação é processada com mais detalhe e precisão.

O neurocientista Joseph LeDoux chamou essas vias de “low road” e “high road” do processamento emocional. A via rápida explica por que sentimos ansiedade antes de entender conscientemente o que nos assustou. Uma revisão no Brazilian Journal of Health Review (Suzigan et al., 2024) descreve que a formação reticular do tronco cerebral despolariza o tálamo, que por sua vez excita os circuitos do córtex, direcionando a atenção para a situação percebida como perigosa. Essa é a base neuroanatômica da hipervigilância, sintoma central em muitos transtornos de ansiedade.

O Eixo HPA: a Resposta Hormonal ao Alarme

Quando a amígdala dispara o alarme, ela envia um sinal imediato ao hipotálamo, a estrutura central de controle neuroendócrino, que ativa dois sistemas em paralelo.

O primeiro é o sistema nervoso simpático, ativado em segundos: as glândulas adrenais liberam adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea, o que aumenta a frequência cardíaca, acelera a respiração, contrai os músculos, dilata as pupilas, desacelera a digestão e aumenta a transpiração. São exatamente os sintomas que quem tem ansiedade descreve: o coração dispara, falta o ar, vem o tremor, o suor frio.

O segundo é o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que opera em uma escala de minutos a horas. O hipotálamo libera o hormônio liberador de corticotropina, que estimula a hipófise a liberar o hormônio adrenocorticotrófico, que por sua vez estimula as adrenais a produzir cortisol, o principal hormônio do estresse. Uma revisão no NCBI StatPearls (2024) descreve que o cortisol mobiliza energia para sustentar a resposta ao estresse, suprime funções não essenciais como a imunidade e a digestão, e em condições normais sinaliza ao hipotálamo que o perigo passou. Uma revisão na Biological Psychiatry Global Open Science (Cahill & Rive, 2024) documenta que a disfunção do eixo HPA, com cortisol cronicamente elevado, está associada a múltiplos domínios afetados nos transtornos de ansiedade: sistemas de valência negativa (medo, ameaça), cognição (memória de trabalho, atenção) e processamento social.

Como o cortisol afeta a ansiedade? O cortisol é o principal hormônio do estresse, liberado pelas adrenais quando o eixo HPA é ativado. Em ameaças agudas, ele mobiliza energia. Na ansiedade crônica, permanece elevado por períodos longos, comprometendo memória, imunidade, sono e regulação emocional, e retroalimentando o ciclo da ansiedade.

Os efeitos combinados do sistema simpático e do eixo HPA produzem a resposta de luta, fuga ou congelamento. A resposta de congelamento, menos conhecida mas igualmente importante, paralisa a pessoa momentaneamente enquanto o cérebro avalia a ameaça, e está ligada a uma estrutura menor chamada núcleo leito da estria terminal, especialmente envolvida na ansiedade difusa e de longa duração, como a preocupação crônica do TAG, em contraste com o medo agudo e pontual.

O Córtex Pré-Frontal: o Freio Racional que Pode Falhar

Se a amígdala é o acelerador, o córtex pré-frontal é o freio, a região que permite avaliar racionalmente a situação e sinalizar à amígdala que não há ameaça real. É a parte mais recente do cérebro humano, responsável por raciocínio, planejamento, tomada de decisão e controle inibitório.

Uma revisão na Neuropsychopharmacology (Kenwood et al., 2022) descreve como vias específicas do córtex pré-frontal modulam a resposta da amígdala por meio de sistemas inibitórios, e como a ruptura dessas conexões está associada à patologia dos transtornos de ansiedade. Uma revisão na Cureus (Mavrych et al., 2025), com 32 estudos sobre o circuito amígdala-córtex pré-frontal medial, confirma que essa conectividade bidirecional é crítica para a percepção e a regulação do medo, e que sua disfunção está na base de transtornos como TEPT, pânico e ansiedade generalizada.

Em pessoas com ansiedade crônica, estudos de ressonância mostram um padrão consistente: hiperatividade amigdalar (a amígdala responde de forma excessiva a estímulos ambíguos), hipoatividade pré-frontal (dificuldade do córtex de exercer seu papel regulatório) e conectividade funcional reduzida entre as duas regiões. Na prática, isso significa que a pessoa sabe racionalmente que não deveria estar tão ansiosa, mas não consegue convencer o cérebro emocional de que está segura. O córtex sabe, mas a amígdala não ouve.

O Hipocampo: a Memória a Serviço do Medo

O hipocampo é uma estrutura em forma de cavalo-marinho, localizada no lobo temporal medial, vizinha da amígdala, classicamente associada à formação de novas memórias. No contexto da ansiedade, ele fornece contexto para as respostas da amígdala: ajuda o cérebro a distinguir se um estímulo é novo ou já foi encontrado antes, e se a associação de perigo aprendida no passado ainda é válida no presente.

Um exemplo: alguém que sofreu um acidente de carro pode sentir ansiedade intensa ao ver um semáforo vermelho anos depois, mesmo sem perigo real. O hipocampo guarda a memória contextual do evento, e a amígdala associa esse contexto ao perigo aprendido. Juntos, perpetuam memórias de medo que podem durar décadas.

O cortisol crônico danifica o hipocampo. Uma revisão no International Journal of Molecular Sciences (Salim et al., 2025) documenta que a ativação prolongada do eixo HPA e os níveis cronicamente elevados de cortisol causam alterações estruturais e funcionais no hipocampo, incluindo redução de volume e comprometimento da neurogênese. Isso cria um ciclo: a ansiedade crônica eleva o cortisol, o cortisol danifica o hipocampo, o hipocampo comprometido dificulta a regulação emocional e a extinção do medo, e a ansiedade se perpetua.

O Locus Coeruleus: o Centro de Alerta Noradrenérgico

Menos conhecido, mas igualmente importante, o locus coeruleus é um núcleo no tronco cerebral e a principal fonte de noradrenalina do cérebro, o neurotransmissor do estado de alerta. Quando é ativado pela amígdala durante uma resposta de alarme, ele libera noradrenalina em várias regiões cerebrais, aumentando o estado geral de alerta e a sensibilidade a estímulos.

A revisão de Suzigan et al. (2024) descreve que o locus coeruleus tem sua ação regulada por receptores GABA-benzodiazepínicos e serotoninérgicos, de efeito inibitório, o que explica por que ansiolíticos que atuam no sistema GABA, como os benzodiazepínicos, têm efeito sedativo e redutor da ansiedade. Em estados de ansiedade crônica, o locus coeruleus pode ficar em hiperativação persistente, contribuindo para hipervigilância, insônia, irritabilidade e dificuldade de concentração.

Os Neurotransmissores da Ansiedade

A comunicação entre todas essas estruturas acontece por neurotransmissores, moléculas que transmitem sinais entre neurônios. Três sistemas são centrais na ansiedade.

GABA. É o principal neurotransmissor inibitório do cérebro, o freio químico do sistema nervoso: reduz a excitabilidade neuronal e produz efeito calmante. Em pessoas com transtornos de ansiedade, há evidências de disfunção do sistema GABAérgico, com menos receptores funcionais e menor eficiência da transmissão inibitória, o que deixa o cérebro em excitação crônica mesmo sem ameaça real. É também por isso que os benzodiazepínicos funcionam rápido: potencializam o efeito do GABA, amplificando o freio, embora o uso prolongado crie dependência e interfira na aprendizagem de novas respostas.

Serotonina. Regula humor, sono, apetite e processamento emocional, e modula a atividade da amígdala e do córtex pré-frontal. Desequilíbrios no sistema serotoninérgico estão associados tanto à ansiedade quanto à depressão, o que explica a comorbidade frequente entre as duas e por que os ISRS são medicamentos de primeira linha para ambos os quadros.

Noradrenalina. É o neurotransmissor do alerta e da vigilância. Níveis elevados se associam à hipervigilância, à resposta exagerada a estímulos e aos sintomas físicos intensos da ansiedade, como taquicardia, tremores e sudorese.

Da Neurobiologia para o Cotidiano

Agora que conhecemos as estruturas, vale traduzir isso para a experiência de quem vive com ansiedade.

“Meu coração dispara sem motivo” acontece porque a amígdala detectou algo ambíguo, um som, um pensamento, uma memória, e ativou o sistema simpático, liberando adrenalina. O “sem motivo” existe porque a ameaça estava no circuito interno, não no ambiente externo.

“Fico tenso sem conseguir relaxar” reflete um sistema simpático em ativação persistente, enquanto o parassimpático não consegue assumir o controle, e o locus coeruleus segue liberando noradrenalina em excesso.

“Minha mente não para de pensar no que pode dar errado” acontece quando o córtex pré-frontal, em vez de inibir a amígdala, é sequestrado por ela, ativando o pensamento verbal e abstrato da preocupação como tentativa de controlar a incerteza, o que paradoxalmente mantém o alarme ativado.

“Sinto que algo ruim vai acontecer, mesmo sabendo que estou seguro” reflete uma via rápida (amígdala-tálamo) produzindo uma avaliação de ameaça que a via lenta (córtex) não consegue sobrescrever com eficiência.

“Fico exausto mesmo sem ter feito muito” acontece porque manter o sistema de alarme ativado consome energia fisiológica enorme, e o cortisol cronicamente elevado contribui para fadiga e dificuldade de concentração.

“Tenho pesadelos e sono ruim” reflete o cortisol elevado interferindo na arquitetura do sono, especialmente nas fases profunda e REM, enquanto a hipervigilância dificulta o relaxamento necessário para adormecer.

A Ansiedade Crônica Muda o Cérebro

Uma das descobertas mais importantes da neurociência recente é que a ansiedade crônica não é apenas um estado funcional: ela altera fisicamente a estrutura cerebral. Estudos de neuroimagem mostram, em pessoas com transtornos de ansiedade crônicos, volume reduzido do hipocampo (associado a dificuldades de memória e regulação emocional), volume aumentado da amígdala (correlacionado com maior reatividade ao medo) e espessura cortical reduzida em regiões pré-frontais, comprometendo a regulação emocional de cima para baixo.

A revisão de Salim et al. (2025) documenta que o cortisol crônico produzido pela ansiedade persistente causa remodelação dendrítica, redução da neurogênese e alterações na conectividade sináptica, sobretudo no hipocampo e no córtex pré-frontal. Mas há um “mas” fundamental: o cérebro adulto é neuroplástico, muda em resposta à experiência, o que significa que intervenções terapêuticas eficazes podem restaurar ou criar novas arquiteturas neurais.

A TCC Muda o Cérebro

Esta é talvez a parte mais esperançosa desta explicação: a TCC não apenas alivia os sintomas da ansiedade, ela reorganiza funcionalmente o cérebro ansioso.

Uma revisão com meta-análise na Frontiers in Psychology (Yuan et al., 2022), analisando estudos de neuroimagem antes e depois da TCC em transtornos de ansiedade e depressão, documentou que as regiões mais consistentemente alteradas incluem o córtex cingulado anterior, o córtex orbitofrontal e o córtex pré-frontal dorsomedial, exatamente as regiões envolvidas na regulação emocional e na modulação da amígdala. Uma meta-análise na Depression and Anxiety (Ren et al., 2025), com estudos de 2000 a 2023, mostrou que a TCC induz aumento de volume de matéria cinzenta no córtex pré-frontal e no hipocampo.

O estudo mais elegante nessa linha foi publicado na Translational Psychiatry (Månsson et al., 2016), um ensaio randomizado com ressonância multimodal em 26 pacientes com ansiedade social. Depois da TCC, houve redução tanto no volume quanto na responsividade da amígdala, e essa redução mediou estatisticamente a queda da ansiedade social. Em outras palavras, a TCC encolheu a amígdala hiperativa, e esse encolhimento foi o mecanismo pelo qual a ansiedade diminuiu. Uma revisão na Neural Plasticity (Saccenti et al., 2024) confirma que intervenções psicoterapêuticas produzem mudanças duráveis na atividade cerebral em regiões como o córtex pré-frontal, o córtex cingulado, a ínsula, o hipocampo e a amígdala.

Em termos simples, a terapia reescreve o funcionamento do cérebro, não apenas os pensamentos.

Como Isso Acontece

A TCC promove neuroplasticidade por alguns mecanismos: o fortalecimento das conexões entre córtex pré-frontal e amígdala, ao praticar repetidamente a avaliação cognitiva de situações ameaçadoras e a exposição controlada ao medo; a extinção do condicionamento de medo, quando a exposição terapêutica cria novas memórias de segurança que competem com as memórias de medo originais; e o aumento do BDNF, o Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, que promove crescimento e sobrevivência neuronal, sobretudo no hipocampo.

Práticas que Apoiam o Cérebro Ansioso

Além da psicoterapia, algumas intervenções têm suporte neurobiológico direto: a respiração diafragmática lenta, que ativa o nervo vago e o sistema parassimpático, reduzindo frequência cardíaca e cortisol; o exercício físico regular, que aumenta o BDNF, reduz o cortisol basal e melhora a conectividade pré-frontal, com efeitos comparáveis a ansiolíticos em casos leves a moderados; o sono de qualidade, essencial para o processamento emocional e a consolidação de memórias de extinção do medo; a prática regular de mindfulness, associada a maior espessura cortical no córtex pré-frontal e menor densidade de matéria cinzenta na amígdala, um padrão inverso ao da ansiedade crônica; e a redução de cafeína e álcool, já que a cafeína aumenta a atividade noradrenérgica e o álcool perturba o sono e reduz a regulação emocional na ressaca.

Quando Buscar Ajuda Especializada

A compreensão neurobiológica da ansiedade não substitui o tratamento clínico, ela o fundamenta. Se você reconhece em si os padrões descritos aqui, sobretudo quando interferem no seu funcionamento diário, vale buscar avaliação com um psicólogo especialista. A neuropsicologia clínica ajuda a mapear, de forma individualizada, quais circuitos estão mais ativos no seu caso, e a TCC oferece um conjunto de técnicas que reescrevem esses padrões em nível neurobiológico.

Como psicóloga especialista em neuropsicologia e TCC, integro o conhecimento sobre o funcionamento cerebral à prática clínica para oferecer tratamento personalizado e baseado em evidências, de forma online, inclusive para brasileiras que moram fora do país.

O Cérebro Ansioso é um Cérebro que Aprendeu a se Proteger Demais

Depois desta jornada pela neuropsicologia da ansiedade, vale reter uma ideia central: a ansiedade não é um defeito, é uma resposta de proteção que ficou desajustada.

A amígdala hipersensível, o eixo HPA hiperativo, o cortisol elevado, o córtex pré-frontal sobrecarregado, tudo isso são manifestações de um sistema que aprendeu, em algum momento, que o mundo é mais perigoso do que realmente é, por razões reais: traumas, histórico familiar, temperamento, experiências acumuladas.

A boa notícia, fundamentada em décadas de neurociência, é que o mesmo mecanismo que criou esses padrões pode modificá-los. O cérebro aprende, o cérebro muda, e a TCC, baseada exatamente nessa capacidade, é a ferramenta mais bem documentada para guiar essa transformação.

Você não está preso no cérebro ansioso para sempre. A neuroplasticidade é sua aliada.

Referências Bibliográficas

  • Shackman, A.J., Grogans, S.E. & Fox, A.S. (2024). Fear, anxiety and the functional architecture of the human central extended amygdala. Nature Reviews Neuroscience, 25, 587-588. doi: 10.1038/s41583-024-00832-y
  • Grogans, S.E., Bliss-Moreau, E., Buss, K.A., et al. (2023). The nature and neurobiology of fear and anxiety. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 151, 105237. doi: 10.1016/j.neubiorev.2023.105237
  • Mavrych, V., Riyas, F., & Bolgova, O. (2025). The Role of Basolateral Amygdala and Medial Prefrontal Cortex in Fear: A Systematic Review. Cureus, 17(1). doi: 10.7759/cureus.338460
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Perguntas frequentes

A ansiedade causa danos permanentes ao cérebro?

A ansiedade crônica pode causar alterações estruturais, como redução do volume hipocampal, mas o cérebro adulto é neuroplástico. Com tratamento adequado, sobretudo TCC e hábitos saudáveis, muitas dessas alterações são reversíveis ou compensáveis.

O que é o sistema límbico e qual seu papel na ansiedade?

É um conjunto de estruturas, incluindo amígdala, hipocampo, hipotálamo e tálamo, que regula emoções, memória emocional e respostas ao estresse. A amígdala é a estrutura central do sistema límbico na resposta de medo.

Por que a ansiedade causa sintomas físicos como taquicardia e falta de ar?

Porque ativa o sistema nervoso simpático, que libera adrenalina e noradrenalina. Esses hormônios aceleram o coração, aumentam a respiração e tensionam os músculos, preparativos fisiológicos para a resposta de luta ou fuga.

O eixo HPA e o cortisol se normalizam com o tratamento?

Sim. Estudos mostram que intervenções eficazes, incluindo TCC e exercício físico regular, normalizam a atividade do eixo HPA e os níveis de cortisol ao longo do tratamento.

A TCC realmente muda o cérebro fisicamente?

Sim. Estudos de ressonância documentam reduções mensuráveis no volume e na reatividade da amígdala depois da TCC, além de aumento de matéria cinzenta no córtex pré-frontal e no hipocampo.

GABA é o mesmo que ansiolítico?

Não exatamente. O GABA é um neurotransmissor produzido pelo próprio cérebro. Muitos ansiolíticos, como os benzodiazepínicos, potencializam o efeito do GABA, amplificando o sistema inibitório natural, o que explica tanto sua eficácia quanto o risco de dependência com uso prolongado.

Mindfulness tem base neurológica para ansiedade?

Sim. Estudos de neuroimagem associam a prática regular a maior espessura cortical no córtex pré-frontal e menor densidade de matéria cinzenta na amígdala, o padrão oposto ao observado nos transtornos de ansiedade.

Thais Gonçalves, CRP 06/159412

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